Argumento
LAURA | ESMERALDA | TELMA | ANA | MARTILEIDE
MARTILEIDE
|Curitiba|
FICÇÃO
CENA 1. CURITIBA.EXT.DIA
Vista aérea da cidade. Tomadas do Centro comercial, dos bairros chiques, pontos característicos, até chegar à parte mais pobre da cidade.
CENA 2. CURITIBA.CASA DE MARTILEIDE.INT.MANHÃ
Banheiro. CLOSEUP.Luz de neblina incide sobre as pernas de Martileide que veste uma meias grossas de lã e calça um par botas de plástico de cano curto. O pouco que dá pra se ver do local, nota-se tratar-se de um ambiente rústico, um sanitário de uma casa de madeira.
CENA 3. CURITIBA. BAIRRO VILA JARDIM. EXT.MANHÃ
Numa vila de casas de madeira, RITA, uma mulher de 30 anos, paramentada
para o dia frio com casaco, calça de malha, botas de plástico
com meias, luvas e touca de lã, está saindo de casa. Passa a chave
na porta e confere se ficou bem trancada. Ela sai caminhando e pára diante
da Casa de Martileide, uma pequena e rústica morada de madeira. Bate
na janela que dá pra rua.
RITA
Vombora, Martileide. Vamos perder a condução.
Em MARTILEIDE acompanhamos a trajetória de uma jovem que, apesar da ascendência
européia, pode ser considerada uma autêntica brasileira de poder
aquisitivo baixo, igual às milhares de jovens que moram na periferia
de uma grande metrópole e trabalham no centro da cidade como balconista,
garçonete ou vendedora. Aos 25 anos, Martileide Hoffman trabalha num
Café/lanchonete no centro de Curitiba e vive inconformada com o tipo
de vida que leva. De temperamento explosivo e comportamento ousado, não
consegue manter um relacionamento amoroso por muito tempo e isso acabou lhe
rendendo a fama de mulher fácil, daquelas que só servem para transar,
jamais para casar.
O único prazer que resta na vida de Martileide é escutar seu programa
de rádio favorito, apresentado por um locutor de voz bela e potente chamado
Valdomiro Artur que transmite mensagens de amor e de esperança. Nesses
momentos ela até acredita que pode dar uma guinada em sua vida e se enche
de bons sentimentos e da esperança de encontrar o grande amor de sua
vida. Com o passar do tempo ela se descobre apaixonada pelo dono da voz de seu
programa favorito. Do amor platônico à obsessão, Martileide
projeta numa voz a salvação de sua vida, causando estranheza a
sua melhor amiga Rita:
MARTILEIDE
Tou cansada de migalhas, sabe? Só o Valdomiro Artur para me tirar deste
avental, desse cheiro de gordura, desta merda.
Martileide não conhece Valdomiro Artur pessoalmente e resolve escrever-lhes
várias cartas, com o pseudônimo de "Roza sem Jardim",
declarando toda sua paixão. Um dia ela é surpreendida na lanchonete
por uma voz que lhe é bastante familiar pedindo que lhe sirva um café.
De costas enchendo uma xícara na máquina de café ela cutuca
Rita aflita.
MARTILEIDE
Rita, se não é a voz de Deus, é a voz dele, do Valdomiro
Artur.
Quase juntas as duas localizam e dão de cara com o dono daquela voz,
sentado num banco do balcão: um anão. Martileide trêmula
entrega o açucareiro para ele e fica em estado de choque, paralisada
olhando para Valdomiro. Transtornada, Martileide, de uniforme e tudo sai em
direção à rua. Ela faz sinal e entra num táxi. Depois
daquele dia, nunca mais Martileide foi a mesma. Até que sumiu do bairro,
sem deixar rastro. Notícia dela, Rita só teve muito tempo depois:
Martileide tinha virado uma prostituta da Boate Paradizo e seu nome agora era
Roza. Rita tinha curiosidade de saber se a Martileide tinha escutado o programa
do Valdomiro daquela noite em que o conheceu, dedicado inteirinho a "Roza
sem Jardim", com a música favorita dela tocando ao fundo.
VALDOMIRO ARTUR (OFF)
Roza sem jardim, senhorita Roza com z, porque ela não é qualquer
rosa, queridas ouvintes, é a minha paixão e o meu jardim. Todas
as rosas tem seu jardim e o teu, Roza, está à tua espera. Nossos
carinhos serão o adubo de nossas vidas; nossos beijos, os pássaros
na nossa janela...Entendi seu amor, a tua sinceridade e nos encontraremos, te
procurarei. Mande um recado para eu te encontrar, Roza.
Te farei feliz!
DOCUMENTÁRIO
Garçonetes, balconistas que trabalham no centro de Curitiba falam de seus sonhos e desejos.